Imprensa

21/06/2016

Como a economia circular pode transformar lixo em ouro

Empresas e governos se preparam para a economia circular, que usa tecnologia e responsabilidade para acabar com o lixo gerado pela sociedade. Nada se perde.

No começo de 2012, Alex Luiz Pereira estava decidido a fechar as portas da primeira cooperativa de lixo eletrônico de São Paulo. Dois anos antes, ele tinha fundado a empresa, chamada Coopermiti, para gerar empregos e aproveitar os componentes dos aparelhos que seriam desperdiçados. Mas a situação não estava fácil. Os dirigentes do projeto abandonaram a iniciativa porque a venda dos resíduos eletrônicos não dava dinheiro suficiente. Além disso, a população não ajudava: o lixo eletrônico não estava chegando aos postos de reciclagem. Alex não teve coragem de fechar a empresa, única fonte de sustento de 20 famílias de cooperados. Resolveu tentar pela última vez. Dessa vez, assumiu a gestão diretamente. Fez convênios com empresas e prefeituras. Para sua surpresa, o projeto andou. No galpão da cooperativa, na Zona Norte de São Paulo, ele mostra as carcaças de monitores, as placas-mães de laptops e uma infinidade de produtos descartados. “Aqui, por exemplo, tem uma pequena quantidade de ouro”, diz, mostrando uma placa verde e cheia de circuitos. “Nós a exportamos para o Japão. Com 70 toneladas dessa placa, eles conseguem fazer uma barra de ouro de 13 quilos.”  

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A Coopermiti é uma das poucas unidades no Brasil a fazer um trabalho crucial: devolver ao processo produtivo aquilo que é considerado lixo. No caso dos eletrônicos, é uma tarefa mais complicada. A ONU estima que o Brasil gera 1,4 milhão de tonelada de lixo eletrônico por ano. Esse acúmulo de produtos descartados evidencia um dos grandes problemas de nosso atual modelo econômico: ele é linear. Nós retiramos a matéria-prima da Terra, como os minérios. Transformamos esses materiais, por meio do processo industrial, em computadores, geladeiras ou celulares. Quando, três anos depois, nosso iPhone deixa de funcionar, ele é simplesmente descartado em aterros, na melhor das hipóteses, ou nos gigantescos lixões que insistem em existir no país. Junto com nossos eletrônicos, vão para o lixão minérios raros e nobres. Estamos jogando ouro no lixo.

O problema começou na própria evolução industrial dos séculos XVIII e XIX. A sociedade saiu de uma economia basicamente agrária (onde nada se perde, tudo se recicla, como na natureza) para a manufatura e, mais tarde, para a linha de montagem que leva ao mercado de consumo e à lata de lixo. O desperdício começou a ser detectado por economistas e naturalistas ainda na década de 1980. Trabalhos de pesquisadores como Michael Braungart e William McDonough, autores de Cradle to cradle (“Do berço ao berço”, traduzido no Brasil como Cradle to Cradle: criar e reciclar ilimitadamente), mostraram que, se os produtos não voltarem à origem do processo produtivo, a conta não vai fechar. As cidades chegarão ao limite, abarrotadas de lixo e sem recursos valiosos para criar novos produtos. Eles propõem uma mudança brusca na forma de produzir. Sugerem um modelo econômico em que os produtos, após chegarem ao fim de sua vida útil, não viram lixo, e sim matéria-prima para gerar novos produtos.

Ao falar com ÉPOCA por telefone, Braungart foi ainda mais radical. “O conceito de sustentabilidade é ultrapassado”, disse. A ideia de reduzir o consumo de recursos naturais, de modo a não comprometer a sobrevivência das gerações futuras – central no conceito de sustentabilidade –, é pouco ambiciosa. Braungart e sua equipe de cientistas tentam encontrar soluções técnicas para produzir objetos que, ao se degradar, sejam reabsorvidos pela biosfera na forma de nutrientes, ou que possam ser facilmente reincorporados ao ciclo produtivo. “Temos de encarar os humanos como um recurso capaz de trazer benefícios para o planeta, e não como um fardo cujo impacto deve ser minimizado.”

A ideia de que tudo o que produzimos pode voltar para a produção em vez de virar lixo ganhou o nome de economia circular. Nessa economia, nada é desperdiçado – todos os produtos devem passar por reaproveitamento, transformação e reciclagem. A chave para que isso ocorra não é a tecnologia da reciclagem, mas sim o design inicial do produto, levando em consideração o que acontecerá com ele quando perder seu valor de uso. Imagine um celular que, quando deixa de funcionar, é fácil de desmontar e só utiliza recursos passíveis de ser reciclados. Esse celular poderia voltar completamente para a indústria, suas partes se transformariam em novos produtos. Nós não teríamos a necessidade de poluir e explorar ainda mais os recursos da Terra.

Nos últimos anos, esse conceito inovador passou a ser adotado, entusiasticamente, pelo empresariado. “A economia circular faz uma crítica profunda sobre como o sistema contemporâneo funciona. E o interessante é que essa postura, vamos dizer radical, está sendo adotada por organizações empresariais”, diz o economista Ricardo Abramovay, da Universidade de São Paulo, autor do livro Muito além da economia verde. O conceito começou a ganhar adeptos. A velejadora britânica Ellen MacArthur, que circum-navegou o mundo sem produzir lixo, criou uma fundação para promover a ideia. A influente revista científica Nature destinou uma edição completa para o assunto em março deste ano.

Por que as empresas adotaram tão entusiasticamente as ideias da economia circular? Primeiro, por sobrevivência. Se continuarmos com um modelo predatório, em algumas décadas, recursos minerais e matérias-primas ficarão mais escassos e caros. Além disso, a tendência é que os consumidores passem a valorizar mais empresas sustentáveis e que o poder público exija ação das indústrias. Isso já ocorre em alguns pontos da Política Nacional dos Resíduos Sólidos. Ela determina que é papel da indústria oferecer meios para o consumidor destinar corretamente os resíduos.

Também há oportunidades de negócios. Um relatório produzido pela Fundação Ellen MacArthur calcula que a adoção de princípios da economia circular pode garantir que as empresas europeias faturem € 900 bilhões a mais até 2030. Esses ganhos virão do desenvolvimento de tecnologias mais avançadas, usadas para transformar resíduos em matéria-prima; da economia financeira gerada pela redução no uso de recursos naturais; e do ganho de competitividade promovido por esses dois fatores.

A economia circular já virou política pública em alguns países, em especial na União Europeia e na China. No final de 2015, a Comissão Europeia aprovou metas como a obrigação de reciclar 65% de todo o lixo inorgânico gerado pelos países até 2030 e o compromisso de reduzir o desperdício de comida em 30% no mesmo período. Estabelece também normas válidas para a produção de objetos diversos, para garantir que eles durem mais e sejam facilmente recicláveis.

Fonte: Bruno Calixto e Rafael Ciscati – Época.

 

http://rmai.com.br/como-a-economia-circular-pode-transformar-lixo-em-ouro/

 

 

 

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